INSS faz força-tarefa para diminuir fila, mas restrição de pedido de benefícios pode limitar acesso do segurado
Caio Prates, do Portal Previdência Total
A fila de espera por benefícios do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) registrou uma queda de 16% entre fevereiro e abril de 2026, passando de 3,1 milhões para 2,6 milhões de pedidos, uma redução de cerca de 500 mil processos em apenas dois meses. Apesar do avanço anunciado pelo Governo Federal, especialistas alertam que o problema ainda está longe de ser resolvido e segue impactando diretamente a vida de milhões de brasileiros que dependem da renda previdenciária.
O anúncio foi feito pelo ministro da Previdência Social, Wolney Queiroz, em meio à apresentação de novas medidas para dar continuidade à redução da fila. Entre elas está o programa Acelera INSS, detalhado pela presidente do órgão, Ana Cristina Silveira, com o objetivo de reduzir o estoque de benefícios em análise há mais de 45 dias para menos de 400 mil em até 90 dias. A iniciativa prevê mutirões nacionais, reforço de pessoal, com nomeação de assistentes sociais, convocação de servidores e abertura de novo concurso investimentos em tecnologia para automatizar e agilizar a análise de requerimentos.
Na avaliação do advogado João Badari, especialista em Direito Previdenciário, a redução dos números é positiva, mas não deve ser interpretada como solução definitiva. “A diminuição da fila é um passo importante, mas ainda estamos diante de um problema estrutural. O segurado continua enfrentando demora excessiva para obter respostas, o que compromete o acesso a benefícios de natureza alimentar”, afirma.
Restrição de pedidos
Uma das medidas recentes adotadas pelo INSS para enfrentar o volume de pedidos foi a publicação da Instrução Normativa nº 203/2026, que restringe a possibilidade de o segurado apresentar múltiplos requerimentos para o mesmo tipo de benefício enquanto ainda estiver em curso o prazo recursal da decisão anterior. A justificativa oficial é reduzir a duplicidade de protocolos, já que mais de 40% dos pedidos reapresentados ocorrem em até 30 dias após a primeira análise.
Para o advogado Ruslan Stuchi, sócio do Stuchi Advogados, a iniciativa tem potencial de organizar o fluxo interno do instituto, mas levanta preocupações relevantes. “A medida busca dar eficiência administrativa, mas pode acabar limitando o direito do segurado de corrigir falhas no pedido inicial, muitas vezes feito sem orientação técnica adequada”, explica.
Segundo especialistas, o processo previdenciário possui características próprias, marcadas pela complexidade normativa e pela vulnerabilidade do segurado. Nesse contexto, a possibilidade de reapresentar um pedido com novos documentos ou fundamentos jurídicos é, muitas vezes, essencial para garantir o acesso ao melhor benefício.
“O Direito Previdenciário é regido pelo princípio do melhor benefício. Ao restringir novos requerimentos durante o prazo recursal, existe o risco de que erros iniciais, seja do segurado ou da própria Administração, tenham consequências mais gravosas”, destaca Badari.
Outro ponto sensível envolve o direito fundamental de petição, garantido pela Constituição Federal. Para Stuchi, qualquer limitação deve ser analisada com cautela. “Estamos tratando de benefícios que têm caráter alimentar. Restrições que dificultem o acesso precisam ser muito bem calibradas para não gerar ainda mais judicialização”, afirma.
Além disso, a fila do INSS é resultado de múltiplos fatores estruturais, como déficit de servidores, alta demanda, falhas recorrentes na análise de benefícios e o uso crescente de sistemas automatizados. Embora a tecnologia represente avanço, especialistas apontam que decisões automatizadas ainda exigem revisão humana em casos mais complexos.
Nesse cenário, a limitação de novos pedidos pode aliviar parte da sobrecarga administrativa, mas não ataca a raiz do problema. “A fila não existe apenas por duplicidade de requerimentos. Ela reflete um sistema sobrecarregado e, muitas vezes, ineficiente. Medidas pontuais ajudam, mas não substituem uma reforma estrutural”, conclui João Badari.
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